02 agosto 2016

Deixo um bocadinho de mim, levo um bocadinho de ti




Como é que nos podemos despedir de uma das coisas mais marcantes e importantes da nossa vida? Foi este o meu pensamento nos últimos meses. A decisão foi tudo menos fácil, mas foi a necessária, eu sabia que tinha de ser assim. Mas, porra, foram 9 anos. Há casamentos que duram menos. Apesar de sabermos que chegou a altura, é como se tivéssemos que arrancar um bocado do nosso coração para o deixar naquele auditório, para sempre. 
A 2 de outubro de 2007, entrei pela primeira vez por aquela porta. Mal sabia que atrás daquela porta iam estar algumas das melhores pessoas que alguma vez conheci, algumas das aventuras mais espetaculares que alguma vez vivi e tantas experiências e aprendizagens que me iam mudar para sempre, tornar-me uma pessoa melhor. Os anos passaram quase sem que desse por isso, de caloira a veterana, de aprendiz a transmissora (nunca perdendo a vontade de aprender). Mudei muito, descobri que podia ser coisas que não sabia que podia ser. E descobri que podemos continuar a descobri-las todos os dias. A escstunis também mudou, não para melhor ou pior, sempre para diferente. E é na diferença que se vai construindo todos os dias e vai crescendo. É nos feitios diferentes, nas formas de trabalhar diferentes, nas formas diferentes de a viver. 
Às vezes foi tão cansativo. Foi mesmo. Fisicamente e espiritualmente. Mas é tão fácil ir buscar forças quando se sobe ao palco e se olha à volta e se veem estas pessoas. Grandes e pequenas, de longe e de perto, tão diferentes mas juntas pelo mesmo. Com um sorriso na cara a ter prazer naquilo que estão a fazer.
Ser de fora e vir morar para Lisboa é muitas vezes difícil por estarmos longe da nossa família. É um autêntico cliché, mas é verdade: estas pessoas com quem passamos tantas horas tornam-se a nossa segunda família. Como ouvi e repeti tantas vezes: não somos todos os melhores amigos uns dos outros; tal como na nossa família há sempre aquele primo ou aquele tio afastado com quem nem falamos tanto. Mas tal como a família, sempre que precisamos, todos nos dão a mão. Todos nos ajudam a aguentar, sem cair. Todos nos ajudam a ultrapassar alguns dos nossos piores momentos, mesmo que muitas vezes não se apercebam disso. Do mais velho ao mais novo. Ou por outras palavras, do Penugem ao candidato que nasceu em 97. 
Quando me perguntaram o melhor momento na tuna, não foi difícil assinalar os 20 anos como uma coisa completamente única, que juntou em palco tantas pessoas de tantas gerações  e tão diferentes entre si, que provavelmente nunca se conheceriam se não fosse a escstunis. Mas também não foi difícil falar de todas as vezes em que com um nó na garganta subi a palco e esqueci todos os meus problemas de bandolim na mão. Aqueles momentos em que nada mais interessava a não ser tocar e sentir aquela malha.
Deixo este pedido a todos os que ficam e aos que virão: nunca percam o amor, o prazer. É esse que nos faz subir a palco e dar tudo, mesmo depois de muitas noites mal dormidas, discussões, lágrimas e abraços. É isso que nos faz sentir que vale a pena, seja uma actuação de rua, um festival ou só um ensaio. Nunca percam o amor ao que fazem, uns aos outros, à escstunis. 
Deixo um bocadinho de mim contigo, mas levo tanto mais. 
A escstunis foi a minha laranja amarga e doce, o meu poema, feito de gomos e saudade. Pesada e leve, secreta e pura. A minha passagem para o breve instante da loucura. E que loucura tão boa. 

Obrigada é muito pouco. 

Joana “Lupuldina” Rodrigues